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Artesanato, beleza natural, bairrismo, pacatez e uma saudável valorização das suas riquezas etnográficas tornam Pardilhó uma das mais belas localidades da Ria de Aveiro.

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Entrevista a um carpinteiro naval
CONSTRUÇÃO NAVAL EM MADEIRA,

UMA ARTE EM VIAS DE EXTINÇÃO

«O Jornal de Estarreja» foi entrevistar um dos últimos carpinteiros navais de Pardilhó. Desta arte ficámos com a ideia de estar em vias de extinção, embora seja uma das maiores riquezas a nível etnográfico e turístico do nosso concelho. O entrevistado foi o Mestre António Silva Esteves, de 61 anos, e trabalha na construção naval desde os dez. O seu estaleiro fica junto da Ribeira das Bulhas.

O Jornal de Estarreja – Há quanto tempo trabalha na construção naval?

António Silva Esteves – Trabalho nesta arte há 52 anos, mais ou menos, e aprendi-a com o Mestre Henrique Lavoura. Entre 1973 e 1993 estive emigrado nos Estados Unidos, mas lá trabalhava também na construção naval, embora em fibra de vidro.

JE – Ainda existem outros construtores em madeira?

ASE – Além de mim há o Felisberto Amador e, mais recentemente, o Arménio Pereira, cá em Pardilhó. Na Torreira há também o José Rito.

JE – Quem compra Moliceiros e os outros barcos da ria?

ASE – A maioria dos barcos é para particulares apaixonados pelos barcos e pela ria. Alguns são para as Câmaras. A de Aveiro já comprou muitos e as de Ílhavo, Murtosa e Ovar também têm comprado. Enfim, desde Espinho a Mira tem havido sempre particulares compradores, e até para Lisboa, mas o grosso das encomendas é mesmo para a Murtosa e Torreira.

JE – E a Câmara de Estarreja...?

ASE – Nunca construí nenhum Moliceiro para a Câmara de Estarreja. Mas acho que agora devia-se construír mais em fibra de vidro, porque o barco em madeira dura muito pouco tempo, e se feito em fibra de vidro tinha uma vida muito maior. As bateiras que estão em Estarreja na rutunda em frente à Caixa Geral de Depósitos são em fibra de vidro, não têm fim! Fui eu que as construí.

JE – Qual é, no seu entender, a terra mãe da profissão de carpinteiro naval?

ASE – Sem dúvida, Pardilhó. Antigamente havia alguns construtores também na Murtosa, e bons, mas não conseguiam dar vazão às muitas encomendas que os próprios murtoseiros faziam, gente que em boa parte trabalhava na ria. A muito maior parte dos carpinteiros navais sempre foi de Pardilhó, eram tantos que daqui saíram para trabalhar por todos os estaleiros de Portugal, do Minho ao Algarve. Nos tempos antigos acontecia até que as moças em Pardilhó só procuravam marido que fosse carpinteiro naval ou músico, de tantos e tão prestigiados que eles eram.

JE – Esta arte tem futuro ou está em vias de extinção?

ASE – Está a acabar. A madeira agora dura pouco: racha com o calor e apanha água doce da chuva, que ajuda a apodrecer. Antigamente os barcos duravam mais porque não estavam parados, andavam na ria e apanhavam água salgada por fora e por dentro, que ajuda a conservar a madeira. Depois há pouca gente a construír, pouca a comprar e ninguém a aprender. E a regulamentação é cada vez mais apertada, metem regras em tudo, muitas delas sem sentido, e isso não ajuda nada. Há três anos ainda construí seis Moliceiros e um Mercantel, mas há cada vez menos encomendas. Esta arte está condenada, dura poucos anos mais.

M. P., Agosto de 2003

 

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