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Artesanato, beleza natural, bairrismo, pacatez e uma saudável valorização das suas riquezas etnográficas tornam Pardilhó uma das mais belas localidades da Ria de Aveiro.

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ASSINALADO O CENTENÁRIO DO BOTA-A-BAIXO DE UM BARCO DE RECREIO

Foram assinalados no último domingo na Ribeira do Nacinho, em Pardilhó, os 100 anos do bota-a-baixo de uma embarcação de recreio – chalupa. A ideia surgiu de um grupo de entusiastas de barcos de recreio de Ovar que descobriu por acaso uma fotografia da chalupa, com legenda (que incluía data e nomes do construtor e do comprador), na montra de um fotógrafo de Ovar. A descoberta entusiasmou o grupo que, encabeçado pelo Arquitecto vareiro Helder Ventura, deslocou-se a Pardilhó para assinalar o acontecimento. Sem carácter cerimonioso o encontro contou também com a presença de Delfim Bismark (de Albergaria-a-Velha e com raízes em Pardilhó, é licenciado em História e director da Fundação Solheiro Madureira, de Estarreja, interessando-se também pela história local, particularmente de Albergaria), Norberto Matos (neto do construtor da embarcação), José Cláudio Vital (Vereador da Cultura da Câmara de Estarreja cuja esposa, também presente, é familiar do comprador), Marco Pereira (interessado na história local que pôde dar alguns elementos sobre a construção naval em Pardilhó, do construtor e do local de construção do barco) e, naturalmente, o nosso jornal.

Há um século, a chalupa foi encomendada por Mateus Soares Belo, um murtoseiro que fez fortuna no Brasil e veio depois a estabelecer-se em Avanca, onde vivem ainda hoje vários descendentes seus. A experiência vivida do outro lado do Atlântico e o facto de ser de origem marinhoa terão contribuído para que este valorizasse os passeios na ria  e viesse a comprar um barco com essa única finalidade, talvez fazendo até algumas sugestões estéticas ao construtor influenciado pelo que vira no Brasil.

A embarcação veio a ser deitada à água no Nacinho a 21 de Março de 1904, dia ventoso como aquele em que 100 anos depois se assinalou a efeméride, e foi baptizada com o nome “Estevam”, o mesmo de um filho ainda bebé do comprador. Há 100 anos os barcos de recreio eram uma moda que muito recentemente havia começado a fazer-se sentir por todo o mundo. Por isso novidade para muita gente e a chalupa “Estevam” terá sido um dos primeiros barcos de recreio da Ria de Aveiro. A fotografia então tirada, que aqui publicamos, indica que o local da construção seja a Ribeira de Mourão, em Avanca. No entanto, pela análise que lhe foi feita, veio a provar-se, com elementos vários, que a construção terá ocorrido na Ribeira do Nacinho, em Pardilhó.

O construtor, Francisco Nunes de Matos, conhecido por Francisco “Fateixas”, era no início do século XX provavelmente o principal construtor naval de Pardilhó, onde já naquela época esta actividade tinha uma grande importância e antiguidade. Francisco “Fateixas” construía todos os anos na Ribeira da Aldeia diversas embarcações de grande porte destinadas ao Tejo (fragatas e varinos), ao Douro e à África portuguesa. Mais tarde participou na construção de lugres bacalhoeiros no Nacinho e, já idoso, ainda fazia dóris (os pequenos barcos usados na pesca do bacalhau) num estaleiro que possuía próximo da Fonte da Samaritana.


Ainda a chalupa “Estevam”

Desde que foi assinalado, há dias, o bata-a-baixo de um barco de recreio em Pardilhó, efeméride essa noticiada pel’O Jornal de Estarreja, surgiram-nos elementos novos sobre o assunto, apurados junto do Eng. Avenilde Valente – distinto empresário avancanense neto do comprador da embarcação – e do Dr. José Cláudio Vital – Vereador da Câmara Municipal de Estarreja, também ligado à família do comprador pelo facto de a sua esposa ser bisneta deste. As novidades sabidas justificam voltar a pegar no assunto para informar os leitores nele interessados.

A chalupa «Estevam» foi afinal construída em Avanca, num armazém pertencente à família Neves, onde mais tarde João António Neves, irmão do célebre Júlio Neves, fundou a actual empresa JANEVES. O pai de João António Neves era amigo de Matheus Soares Belo (que mandou construir a chalupa) e permitiu a utilização desse armazém, onde se encontrava a sua oficina de ferreiro e carpintaria, para realizar-se a construção. Matheus Soares Belo que, como se disse, havia feito fortuna no Brasil – em Belém do Pará -, trouxe deste país o projecto da chalupa, um género de embarcação ali popular, tanto na época como hoje. Apaixonado pela Ria de Aveiro, contratou o construtor naval de Pardilhó Francisco “Fateixas” para construir-lhe um barco de acordo com o projecto brasileiro. Depois de construída a embarcação foi levada para a ria puxada por um carro de bois, sendo deitado à água a 21 de Março de 1904 e tendo a sua primeira viagem a caminho de Aveiro passados três dias. Existe uma fotografia dela puxada pelos bois, hoje pertença do Eng. Avenilde Valente, juntamente com a publicada na última edição d’O Jornal de Estarreja.

Matheus Soares Belo casou-se em Avanca e vivia dos seus rendimentos. No entanto pouco tempo passava nesta freguesia. Apaixonado que era pela Ria de Aveiro nela passava o tempo, em passeios, tainadas e visitas à Assembleia da Torreira, onde havia muitas tardes de jogatina. A Assembleia, ponto de encontro da “fina nata” da região, fora inaugurada em 1911, substituindo uma outra que havia sido derrubada pelo mar – que na mesma época fez também estragos em Espinho, derrubando inclusive a Igreja dali –, e pertencia à família dos Sebolões, que junto com os Tavares eram os Arrais dominantes das companhas de pesca na Torreira.

In O Jornal de Estarreja, Março de 2004


BOTA-A-BAIXO COM 100 ANOS FOI RECORDADO

O centenário do bota-a-baixo de um barco de recreio, que ocorreu há 100 anos, foi recordado dia 21 de Março na Ribeira do Nacinho. A embarcação – uma chalupa – é um modelo de origem brasileira, cujo projecto Matheus Soares Belo, um murtoseiro enriquecido no Brasil, trouxe de Belém do Pará, onde o género estava já bastante difundido. Matheus Soares Belo, regressado a Portugal e estabelecido em Avanca, era um apaixonado pela ria e quis construir um barco de recreio como aqueles que conhecera no Brasil. Para isso contratou Francisco Nunes de Mattos, na época provavelmente o maior construtor naval de Pardilhó, a quem mandava buscar todos os dias para trabalhar na construção, que teve lugar num armazém cedido por um amigo, localizado onde está hoje a empresa «Janeves». Ali havia ainda uma oficina de ferreiro e uma carpintaria. O bota-a-baixo ter-se-á dado a 21 de Março de 1904 e, no dia 24, a chalupa teve a sua primeira viagem em direcção a Aveiro. Foi baptizada com o nome «Estevam», o mesmo de um filho então ainda bebé do comprador.

Há um século eram ainda uma novidade recente as embarcações de recreio pelo mundo fora, de maneira que esta teria sido uma das primeiras na ria de Aveiro, então pejada de barcos de trabalho. O construtor Francisco Nunes de Mattos, conhecido em Pardilhó por Francisco «Fateixas», era um dos muitos e bons carpinteiros navais que naquela época já tinham feito história na freguesia. Construía todos os anos barcos de grande porte destinados ao Tejo (fragatas e Varinos), ao Douro e à África portuguesa. Participou depois na construção de alguns lugres bacalhoeiros, no Nacinho, e, no fim da vida, fazia dóris (pequenas embarcações utilizadas na pesca do bacalhau) num barracão próximo da Fonte da Samaritana.

Quase 100 anos depois do bota-a-baixo da chalupa «Estevam» um grupo de entusiastas de embarcações de recreio, de Ovar, descobriu casualmente uma fotografia deste barco, legendada com a data e nomes do construtor e do comprador, na montra de um fotógrafo vareiro, fotografia essa pertencente ao Eng. Avenilde Valente, de Avanca, neto de Matheus Soares Belo. O facto entusiasmou-os, por tratar-se de um dos primeiros barcos de recreio da ria de Aveiro, e encabeçados pelo Arquitecto Helder Ventura deslocaram-se a Pardilhó para assinalar o centenário do bota-a-baixo, num encontro sem cerimónias e no qual estiveram igualmente presentes Delfim Bismark (de Albergaria-a-Velha e com alguns antepassados em Pardilhó, é licenciado em História e director da Fundação Solheiro Madureira, de Estarreja, sendo ainda interessado pela história da região, especialmente de Albergaria), Norberto Matos (neto de Francisco «Fateixas»), José Cláudio Vital (Vereador da Cultura da Câmara de Estarreja, acompanhado da sua esposa, que é familiar do comprador) e Marco Pereira (interessado na história de Pardilhó que pôde dar alguns elementos sobre a construção naval na freguesia e em particular do construtor Francisco «Fateixas»).

In O Concelho de Estarreja, Abril de 2004

 

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