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Artesanato, beleza natural, bairrismo, pacatez e uma saudável valorização das suas riquezas etnográficas tornam Pardilhó uma das mais belas localidades da Ria de Aveiro.

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As primeiras figuras impressas no século XIX
Trajos populares do concelho de Estarreja

O trajo que vemos na fig. 1 corresponde ao «vendedor de aves de Pardilhó», hoje representado pelo grupo etnográfico Danças d’Aldeia, de Pardilhó, e pelos Camponeses da Beira Ria, do Bunheiro. O vendedor de aves deslocava-se a pé ao Porto e, certamente, a localidades mais próximas de nós, para vender a sua caça. Mas que aves seriam aquelas? Os autores dos trabalhos publicados até à primeira metade do século XX falam na pardilheira, à qual também chamavam de pardilho, que pela descrição feita dever-se-á tratar do marrequinho (Anas Creca), na nossa região também conhecido por marreca ou marrequinha. É a ideia que podemos adiantar pela informação que nos deu o nosso amigo Paulo Santos. Aquela ave abundava na nossa ria no antigamente, embora não possamos hoje dizer o mesmo, e talvez fosse caçada à noite com redes. Poderia tratar-se de igual modo de pardais e é possível que venha daí a alcunha de “pardaleiro” em Pardilhó.

O original da fig. 1 aqui publicada, legendado como «Marchand de volaille de Pardilho», foi encontrado pelo Padre António Ruela e Silva num alfarrabista de Paris, há mais ou menos trinta anos. A figura avulsa pertence hoje ao nosso amigo Eng. José Ruela e Silva,  que gentilmente no-la emprestou, e faz parte de uma vasta colecção francesa, editada em quatro volumes de 1843-1844, todos recheados de figuras coloridas, correspondendo o primeiro volume ao continente europeu. Estes volumes, cujo autor foi Auguste Wahlen, foram baptizados de «Moeurs, usages et costumes de tous les peuples du monde, d’après des documents authentiques et les voyages les plus récents» (Bruxelas, «Librairie historique-artistique»). Existe uma tradução portuguesa por Francisco Ludovino de Sousa Freitas Sampaio, com o nome de «Costumes usos e trajos de todos os povos do mundo em face de documentos authenticos e das mais recentes viagens», Lisboa, Imp. Lusitana, 1872-1878.

Entre as muitas dezenas de gravuras desta colecção, todas elas fora do texto e coloridas, há apenas três de Portugal: o vendedor de aves de Pardilhó, Ovarina, e Mulheres de Miranda (do Douro). O Dr. Rocha Madahil faz referência a esta colecção e ao respectivo vendedor de aves no seu trabalho «Alguns aspectos do trajo popular da Beira Litoral», que publicou-se no «Arquivo do Distrito de Aveiro» a partir de 1938, nos volumes IV (pág. 145 e ss. e 213 e ss.), V (pág. 59 e ss. e 247 e ss.) e VII (pág. 115 e ss.), e em separata em 1941. O Museu de Ovar entendeu numa das suas múltiplas publicações, e bem, reeditar este trabalho do insigne investigador regionalista que é o Dr. Rocha Madahil, em 1992. É ele quem nos diz ainda que o vendedor de aves de Pardilhó «documenta a sua evolução última com as manaias dos marnotos das marinhas da Ria de Aveiro».

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A fig. 2, a vendedora de peixe de Pardilhó e Murtosa, obtemo-la na Biblioteca Nacional, e não fosse o surgir no interior da capa de «Murtosa Gente Nossa», de Lopes Pereira, pouco nítida e legendada meramente como «trajo antigo», sem qualquer referência à sua verdadeira origem, seria entre nós completamente desconhecida. Rocha Madahil mostra-nos os dois vendedores de aves (figs. 1 e 3) e conhece a vendedora de peixe de Macphail (fig. 3), mas ignora a vendedora de peixe original (fig. 2), embora tenha conhecimento de outros números da mesma colecção. A figura foi publicada em Paris, provavelmente em 1843, legendada como « Mde de poissons de Pardilhé et Murtoja», i.e Marchande de Poissons de Pardilhó et Murtosa,  constituindo o número 81 da colecção do Musée Cosmopolite, que tem também a «femme d’Ovar» e o «Paysan de Murtosa», utilizados de igual modo por Macphail, de quem falaremos de sueguida, na sua primeira colecção.

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Dos dois vendedores (figs. 1 e 2) João Macphail, que rapidamente terá tido conhecimento de existirem, fez uma reprodução mais ou menos aproximada. Deste tipógrafo lisboeta são célebres três colecções de litografias de trajos populares portugueses que, tendo merecido reparos vários na época em que se editaram, não deixam de ter o seu valor. Rocha Madahil dá-nos informações acerca de todas. A primeira colecção de estampas coloridas litografadas por Macphail data de 1841 e são dela conhecidas 18 figuras. Nova colecção sai logo em 1842, conhecendo-se desta 12 figuras. A terceira não tem data, embora Alberto Sousa lhe atribua 1843 (sem fundamento, segundo cremos), e constitui-se, que se saiba, de 17 figuras, sendo duas delas da Beira Litoral (fig 3), o vendedor de aves – que estende também à Murtosa – e a vendedora de peixe.

As duas figuras que nos interessam da 3.ª série de Macphail (fig. 3) aparecem no trabalho de Alberto Sousa «O trajo popular em Portugal nos séculos XVI e XIX», de 1924, com as seguintes legendas:

«VAREIRO – Pardilhó e Murtosa – 1843

Barrete preto com orla vermelha, cabelo em compridas guedelhas, camisa aberta no peito, cinta vermelha, cuecas e colete azul com grandes botões de metal.

Vende Caça.»

«VAREIRA – Pardilhó e Murtosa – 1843

Chapéu de abas largas, lenço branco pousando sobre a romeirinha preta, corpete vermelho com grandes botões prateados, saia azul apertada na cintura.»

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Daquilo que de trajos populares respeitantes ao nosso concelho há notícia até ao final do século XIX não conhecemos mais nada. Por isso estas são as figuras de costumes mais antigas publicadas respeitantes ao concelho de Estarreja. Estando nós numa região de costumes tão diversificados, onde a Murtosa, vizinha e culturalmente próxima, surge tão frequentemente com trajos diversos em trabalhos como aqueles a que aludimos, o ter encontrado duas figuras de Pardilhó deu-nos alguma satisfação, só minimizada pela frustração de não haver mais nenhuma das outras seis freguesias do concelho. Se foram estes os trajos que aqui mais chamaram a atenção das colecções do século XIX, então talvez possamos dizer que estas duas figuras correspondem àquilo que de mais típico existe no nosso concelho.

Marco Pereira, 2002

fig. 1

fig. 2

fig. 3 fig. 3

 

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